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Crescer com o teatro

As primeiras experiências com o teatro podem ser marcantes. Podem abrir a porta a um fascínio que, mais tarde, se transforma na paixão (e vocação) de uma vida. A propósito de Sumário: Auto da Barca do Inferno, a encenadora e o elenco recordam experiências que marcaram a sua relação com esta arte. Onde pode começar o fascínio pelos palcos?

Lembro-me de ir ver um espetáculo do Teatro Infantil de Lisboa, que na altura apresentava as suas peças em Alcântara, perto da minha casa. Eu devia ter dez anos. Estávamos sentados em cadeiras dispostas em pequenas filas e a cenografia tinha sido construída para parecer que estávamos dentro de um avião! À entrada recebíamos um bilhete, havia paredes com janelinhas redondas e o espetáculo começava com a demonstração de segurança a ter durante o voo. Não me lembro de mais nada, só desta sensação mágica. Foi a primeira vez que andei de avião. 

 

Raquel Castro

Há espetáculos que nos ficam na memória não apenas pelo que contam, mas pela forma como transformam o nosso olhar sobre o teatro. Menos Emergências, de Ricardo Neves-Neves, foi um deles. Vi-o enquanto estudava interpretação na Escola Superior de Teatro e Cinema e pensei: «Como é que eles conseguem fazer isto»? Tudo parecia obedecer a uma partitura invisível: o ritmo, a musicalidade do texto e uma precisão que exigia enorme concentração. Interroguei-me sobre onde estaria a liberdade do ator numa encenação que implicava uma execução tão milimétrica. Parecia haver pouco espaço para improvisar ou variar. Mas foi precisamente essa ideia que o espetáculo desmontou. Essa liberdade não desaparecia, transformava-se. Aquilo que antes me parecia uma limitação revelou-se uma das formas mais desafiantes de estar em palco. 

 

Ana Valente

Desde criança que me lembro de ir ao teatro, os meus pais dizem que me portava muito bem. Acredito que sim. Tenho, desde aí, reverência pelas salas vazias e pelos palcos vazios. Adoro esse silêncio. Nessa altura, segurava a cabeça nas mãos e ficava ali a seguir os atores de um lado para o outro. Um deles era o meu avô. Talvez tenha decidido nessas noites que iria ser ator e estudar teatro. Não tenho uma memória marcante sobre o teatro e a minha infância porque o teatro faz parte dela de uma forma que a atravessa e deixa marcas, não apenas uma. Isso não faz de mim mais ou menos feliz, mas como o teatro nos convida a pensar o mundo, talvez tenha feito de mim melhor pessoa, seja lá o que isso for. Gostava que esta última frase fosse verdade, seja lá o que isso for. 

 

Bernardo Gavina

Uma das memórias mais marcantes para mim, no que se prende à relação do teatro com a escola, foi ter-me reunido com o meu grupo de amigos (na escola básica) e termos criado um pequeno grupo de teatro. Lembro-me de passarmos o recreio e alguns fins de semana, quando não tínhamos aulas, a discutir, pensar, planear, escrever e criar a peça que iríamos apresentar naquele ano. As apresentações costumavam acontecer nos finais de ano, numa espécie de festa de fim de ciclo. Fizemo-lo tanto na escola básica como na secundária (tivemos a sorte de seguirmos juntos para o ensino superior). Estas memórias foram muito marcantes porque me remetem para a ideia da criação enquanto ato coletivo; assim como a ideia de seguirmos o que nos dá prazer; de descobrir o teatro, de pensá-lo, senti-lo, de forma muito genuína e livre. Foi fundamental para o meu crescimento e para a minha relação não só com o teatro, mas com a própria escola. 

 

Pedro Baptista

A minha infância passou-se nos anos 80 e 90 do século passado e na verdade tenho poucas memórias de o teatro fazer parte dela. A primeira memória digna desse nome é de quando fui, já mais velha, ver o Falar Verdade a Mentir, de Almeida Garrett, em 1996, numa encenação de Ruy de Matos. Tinha 13 anos e visitava pela primeira vez o Teatro Nacional D. Maria II. Lembro-me de ir em contexto escolar, mas na verdade penso que fomos por nós próprios, com amigas e amigos, de nos rirmos muito e sairmos de lá a cantar «falar verdade a mentiiiiir». Ainda hoje me lembro da canção, trinta anos depois. Devíamos estar num camarote, lembro-me do veludo, de contemplar o espetáculo de cima e de ter pena de não ver melhor a cara dos atores e atrizes. Pouco tempo depois disso estava a estudar teatro. 

 

Rita Brütt

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