
A Direção Artística do Teatro Nacional D. Maria II parte da convicção de que um Teatro Nacional não é apenas um edifício, uma programação ou um lugar de consagração. É uma ferramenta pública de imaginação coletiva. Um espaço de representação simbólica do país e do mundo, mas também um dispositivo crítico capaz de o questionar e reinventar.
O mandato iniciado em 2021 coincidiu com um dos períodos mais singulares e transformadores da história recente da instituição. O encerramento do edifício do Rossio, na sequência das obras de reabilitação, obrigou a uma redefinição profunda do que poderia significar um Teatro Nacional no século XXI. Dessa circunstância nasceu uma possibilidade: pensar o D. Maria II não apenas como um teatro sediado em Lisboa, mas como uma instituição em relação ativa com o território, com diferentes comunidades, linguagens, gerações e modos de participação.
A Odisseia Nacional tornou-se, nesse sentido, mais do que um programa de descentralização. Foi uma experiência de transformação institucional, de coesão territorial. Em mais de uma centena de municípios, o D. Maria II confrontou-se com outras escalas, outros públicos, outras urgências e outras formas de construir relação. Essa experiência alterou de forma estrutural a visão artística da instituição e tornou impossível regressar a uma ideia centralizada e exclusivamente metropolitana do que deve ser um Teatro Nacional.
O regresso ao Rossio, em 2026, não representa por isso um retorno ao ponto de partida. Representa antes a possibilidade de reunir, condensar e projetar tudo o que foi aprendido durante este período de deslocação.
A temporada 2026/2027 assume assim um valor simultaneamente inaugural e transitório. Inaugural porque marca a reabertura do edifício do Rossio e os 180 anos da instituição. Transitório porque procura lançar bases para o futuro, recusando uma visão celebratória ou monumental de um Teatro Nacional.
Mais do que afirmar um modelo fechado, a programação propõe um teatro em permanente escuta, transformação e negociação com o presente.
A visão artística para este ciclo organiza-se em torno de alguns princípios estruturantes:
O capítulo que se inicia em 2026/2027 irá ainda consolidar um modelo de programação assente em temporalidades mais longas, sobretudo na Sala Garrett, permitindo aos espetáculos ganhar sedimentação pública, desenvolver relação com os espectadores e contrariar lógicas de circulação excessivamente rápidas.
A opção por temporadas mais extensas responde também à vontade de reforçar a presença das obras no espaço público e na memória coletiva, permitindo que os espetáculos se transformem em acontecimentos acompanhados, revisitados e partilhados ao longo do tempo. Esta lógica contraria modelos de hiper-rotação programática e afirma a importância da duração, da permanência e da construção de relação continuada entre artistas, obras e espectadores. Em paralelo, outros espaços da instituição, como a Sala Estúdio Rey Colaço- / Robles Monteiro, continuarão a acolher propostas mais experimentais, emergentes ou híbridas, promovendo o risco artístico e a diversidade formal.
O teatro é, por natureza, uma arte de convergência. Nele encontram-se a palavra, o corpo, a música, a imagem, o espaço, o movimento e o pensamento. A programação do Teatro Nacional D. Maria II acolhe assim diferentes disciplinas, linguagens e práticas artísticas, reconhecendo no próprio teatro uma forma de arte total, capaz de integrar múltiplos modos de criação e perceção. Esta abertura permite ampliar as possibilidades de representação e aprofundar a relação entre as obras, os artistas e os públicos.
Ao mesmo tempo, a dimensão internacional continuará a ser entendida não como sinal de prestígio abstrato, mas como prática concreta de circulação de ideias, artistas e modos de produção. A internacionalização do D. Maria II deve coexistir com um profundo compromisso com os contextos locais e nacionais.
Num contexto internacional marcado pela fragilização democrática, pela polarização política e pela crescente instrumentalização da cultura, importa defender instituições culturais capazes de sustentar complexidade, pensamento crítico e imaginação coletiva. O teatro surge aqui como espaço de pluralidade, onde diferentes visões do mundo, sensibilidades e formas de expressão podem coexistir e confrontar-se. A salvaguarda dessa diversidade artística e simbólica torna-se hoje particularmente necessária perante o ressurgimento de discursos hegemónicos e excludentes.
A visão artística do D. Maria II concretiza-se numa série de eixos de atuação que procuram conciliar diferentes dimensões da atividade do Teatro, tendo em conta critérios artísticos e institucionais e as exigências do mundo contemporâneo. Estes eixos dialogam entre si e contribuem para afirmar uma instituição simultaneamente enraizada na sua história e aberta à transformação, capaz de conjugar a sua responsabilidade institucional de salvaguarda do património com o compromisso com a criação contemporânea.
Uma das linhas centrais da programação passa pela relação com os textos fundadores da história do teatro e da literatura. Não enquanto património intocável, mas como matéria viva, permanentemente reativada pelo presente.
A programação procurará desenvolver novas leituras de nomes fundamentais da tradição dramática, promovendo processos de tradução, adaptação, recontextualização e confronto crítico com os cânones.
Interessa pensar os clássicos não como objetos de veneração, mas como dispositivos de debate contemporâneo. Que perguntas podem ainda produzir? Que zonas de conflito permanecem ativas? Que tensões históricas importa revisitar, problematizar ou contradizer?
O D. Maria II assume igualmente o compromisso com a criação contemporânea portuguesa e internacional, apoiando artistas que trabalham sobre as urgências do presente e experimentam novas formas dramatúrgicas, cénicas e performativas.
Esta linha inclui encomendas de novos textos, coproduções nacionais e internacionais, apoio à investigação artística e acompanhamento de criadores em diferentes fases do seu percurso.
A coexistência entre artistas amplamente reconhecidos e novas gerações constitui um princípio estruturante da programação.
A experiência da Odisseia Nacional confirmou a necessidade de pensar o D. Maria II para além da sua sede física.
A relação com o território continuará a ser um eixo estratégico da instituição, através de itinerâncias, coprogramações, residências, projetos participativos e parcerias com estruturas culturais, municípios, escolas e comunidades em diferentes regiões do país.
Não se trata apenas de circulação de espetáculos, mas da construção de relações duradouras, capazes de gerar conhecimento mútuo e transformar a própria instituição.
O D. Maria II procura aprofundar modelos de criação e programação participativa, envolvendo diferentes comunidades nos processos artísticos e de mediação.
Projetos como ATOS, Boca Aberta ou diferentes iniciativas de mediação e formação demonstram a importância de pensar o teatro como espaço de encontro intergeracional, cívico e comunitário.
A participação não surge aqui como dimensão acessória da programação, mas como parte integrante da missão pública da instituição.
A programação artística será acompanhada por um conjunto de atividades de reflexão, debate, edição e mediação cultural.
Conferências, ciclos de pensamento, conversas pós-espetáculo, publicações, ensaios, oficinas e programas educativos integram uma visão expandida da atividade do teatro.
Interessa construir contextos de leitura para as obras apresentadas e estimular formas ativas de relação entre artistas, espectadores e pensamento contemporâneo.
O Teatro Nacional D. Mari II entende a formação não apenas como qualificação técnica, mas como espaço de transmissão entre gerações, práticas e experiências.
A instituição procurará reforçar o trabalho com jovens artistas, estudantes, escolas superiores e contextos não profissionalizantes, criando oportunidades de contacto continuado com processos de criação, repertório e pensamento teatral.
Esta linha inclui também a valorização da memória teatral portuguesa e dos processos de documentação, arquivo e edição.
A dimensão internacional da programação assenta em relações de colaboração sustentadas e não apenas em modelos de circulação pontual.
Coproduções, apresentações internacionais, participação em redes europeias e projetos de cooperação continuarão a integrar a atividade do TNDM II.
Importa reforçar a presença internacional da criação portuguesa, ao mesmo tempo que se promove o contacto com diferentes contextos artísticos e modelos institucionais.
A atividade artística do D. Maria II será progressivamente atravessada por práticas de responsabilidade social e reflexão institucional.
Mais do que responder a tendências conjunturais, interessa incorporar de forma estrutural questões ligadas à diversidade, à inclusão, à acessibilidade e às condições de trabalho no setor cultural.
A programação deverá refletir criticamente estas questões, tanto nos conteúdos artísticos como nos modos de produção e relação institucional.





